Sobre as contradições inter-imperialistas

Jorge Cadima -

A face mais visível da agudização das contradições entre as grandes potências capitalistas é representada pela Presidência Trump e pelos seus ataques, não apenas contra adversários, mas também contra os tradicionais vassalos dos EUA. O que as marca nos nossos dias é a disputa para ver quem poderá melhor escapar ao declínio

 Assistimos a um acirrar de contradições entre os EUA e outras potências imperialistas. Mas ao contrário do que se passou na viragem dos Séculos XIX-XX, quando os imperialistas se degladiavam pelo controlo de recursos, colónias e mercados para assegurar a sua ulterior ascensão e poder, a agudização das contradições inter-imperialistas nos nossos dias é marcada pela disputa para ver quem poderá melhor escapar ao declínio. É o salve-se quem puder no convés do Titanic. A força e a violência, engolindo e pilhando quem for possível, são a forma privilegiada de melhorar a posição relativa dos EUA. Mesmo que isso signifique pilhar os ‘aliados’ como a UE, Canadá, Inglaterra ou Japão. As verdadeiras razões destas disputas residem nas dificuldades que as velhas potências imperialistas estão a encontrar para perpetuar a sua dominação planetária.

É da História

 No binómio concertação/rivalidade que caracteriza o campo imperialista, a rivalidade ressurge com força. As contradições entre grandes potências imperialistas não são uma novidade. Lénine analisou em profundidade essa característica permanente do capitalismo na sua fase imperialista. Na primeira metade do Século XX as rivalidades agudizaram-se a tal ponto que deram origem à I Guerra Mundial e, embora com outras particularidades (existência da URSS), marcaram também a II Guerra Mundial. A profunda alteração na correlação de forças verificada no final da II Grande Guerra (1) e o grande desafio histórico ao capitalismo mundial representado pelas revoluções socialistas (2), pelo poderoso ascenso do movimento de libertação nacional e pelos enormes avanços do movimento comunista no plano mundial, foram decisivos para que, durante anos, essas contradições inter-imperialistas tenham passado para segundo plano (3). Face à realidade saída da derrota do nazi-fascismo, as classes dirigentes das restantes potências imperialistas aceitaram subordinar-se à super-potência norte-americana que encabeçava a cruzada anti-comunista da ‘Guerra Fria’. Essa subordinação manteve-se após as contra-revoluções que puseram temporariamente fim ao socialismo na Europa, no final do Século XX. As potências europeias procuraram manter a sua influência e os seus lucros no plano mundial participando activamente, embora numa posição de vassalos, na ofensiva global desencadeada pelo poderoso imperialismo norte-americano para recolonizar o planeta e reverter os avanços de libertação nacional e social que haviam marcado a fase anterior. Foi assim, da guerra para destruir a Jugoslávia até ao genocídio em Gaza.

 Hoje as contradições inter-imperialistas estalam por toda a parte. A troca da ‘economia real’ pela ficção financeira que marcou as potências imperialistas nas últimas décadas, embora tenha assegurado super-lucros parasitários, minou a sua força industrial e produtiva. Ao fazê-lo, minou a sua hegemonia planetária. Por debaixo da capa dum poder ilimitado do grande capital financeiro, com centro nos EUA, foram-se dando transformações (deslocalização da produção, desindustrialização, endividamento massivo dos Estados imperialistas, crescimento galopante das desigualdades, da pobreza e da concentração da riqueza) que socavam a (des)ordem mundial. Com a impetuosa ascensão da China, a realidade económica e produtiva já não corresponde hoje à velha hegemonia política das grandes potências imperialistas. As sucessivas bolhas especulativas (como a que actualmente rodeia a chamada Inteligência Artificial) mascaram temporariamente a realidade, mas o multiplicar de crises económicas e financeiras prova que os problemas são de fundo. O descontentamento social e político de largas massas nos próprios centros imperialistas é uma realidade incontornável, que condiciona a capacidade de dominação do grande capital financeiro (4). As actuais rivalidades inter-imperialistas reflectem esta crise e a dificuldade do centro imperialista em encontrar uma saída que preserve os seus lucros e o seu poder.

Trump e a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA

 A face mais visível da agudização das contradições entre as grandes potências capitalistas é representada pela Presidência Trump e pelos seus ataques, não apenas contra adversários, mas também contra os tradicionais vassalos dos EUA. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSS, Dezembro de 2025) afirma explicitamente a sua ambição de controlo total do Hemisfério Ocidental (ou seja, do continente americano), com o chamado «Corolário Trump da Doutrina Monroe» (5). Esse ‘corolário’ é descrito assim: «negar aos concorrentes não-hemisféricos a possibilidade de […] adquirir ou controlar bens estrategicamente vitais no nosso Hemisfério». As afirmações e acções de Trump mostram que esse objectivo não passa apenas por impedir que a China tenha normais relações económicas nas Américas. Passa também por uma ‘governação directa’ dos EUA sobre os países do continente (como Trump afirmou querer fazer na Venezuela); um controlo directo sobre os pontos de trânsito comercial (como o Canal do Panamá ou os portos); a anexação pelos EUA da Gronelândia, território sob jurisdição da Dinamarca (país da UE e fervoroso ‘aliado’ dos EUA na NATO); ou a ameaça expressa de anexar o próprio Canadá. Mas se os Estados Unidos querem negar a outros a possibilidade de ter normais relações comerciais no Hemisfério Ocidental, não se coibem de afirmar que os EUA têm ‘interesses vitais’ um pouco por todo o mundo, da Ásia-Pacífico ao Médio Oriente e África.

 Quem pense que os EUA estão a ‘recuar’ dum papel global, encerrando-se no ‘seu’ Hemisfério, vê o desmentido logo na abertura da nova Estratégia de Segurança (NSS), que afirma a América Primeiro (America First): «Assegurar que a América continue a ser, nas próximas décadas, o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem sucedido». O problema é que, como a NSS candidamente reconhece, os EUA não estão hoje em condições de alcançar esse objectivo: «As nossas elites enganaram-se de forma dramática ao avaliar a disponibilidade da América para suportar eternamente fardos globais que o povo americano não sentia como ligados ao interesse nacional. Sobrestimaram a capacidade da América financiar, simultaneamente, um gigantesco Estado de bem-estar, regulamentado e administrativo, em conjunto com um enorme complexo militar, diplomático, de serviços secretos e ajuda externa. Apostaram enormemente e de forma errada no globalismo e no chamado ‘comércio livre’, que esventrou a própria classe média e a base industrial sobre a qual assentava a proeminência económica e militar americana. […] Em suma, as nossas elites não apenas visaram um objectivo fundamentalmente indesejável e impossível, como, ao fazê-lo, minaram os próprios meios necessários para o alcançar». Trump propõe-se reverter este estado de coisas. Se o vai conseguir, ou se vai acabar por acelerar ulteriormente o declínio dos EUA, é o que está hoje em jogo. Mas, por debaixo da farronca agressiva, há reais debilidades e até desespero.

 É ridículo o papel de vítima que Trump sistematicamente adopta, queixando-se de que todo o planeta tem estado a ‘aproveitar-se’ e a ‘roubar’ os Estados Unidos. A verdade é precisamente o contrário: os EUA criaram as instituições internacionais vigentes e têm estado a roubar e aproveitar-se do resto do planeta. Só que esse sistema, que durante décadas gerou super-lucros para o grande capital dos EUA, deixou de garantir a sua hegemonia mundial. Foi com as regras made in USA que a China deu um salto qualitativo e retomou o seu lugar como maior economia mundial (6). E o gigante norte-americano já não tem a força económica, financeira e mesmo militar, para sustentar as guerras em que se quer envolver em múltiplas frentes. O endividamento galopante faz com que o gigantesco orçamento militar dos EUA seja hoje ultrapassado pelos juros da descontrolada dívida pública. A renovação da dívida expirada é cada vez mais difícil, face aos juros altos e às desconfianças crescentes sobre a segurança do dinheiro que aflui aos EUA. O papel do dólar como moeda de reserva mundial está hoje ameaçado, e com ele um pilar fundamental do poderio global dos EUA.

 A NSS 2025 pode resumir-se na ideia de que os EUA precisam duma reorientação, de ganhar forças e reindustrializar («o futuro pertence a quem fabrica»), a fim de poder voltar a impor (pela força) a sua supremacia mundial. Para isso precisam de intimidar, para que não parem os investimentos e as compras de dívida dos EUA. E precisam que outros partilhem os custos da sua gigantesca máquina militar, que tanto tem contribuído para o endividamento dos EUA. Daí a exigência dum rearmamento acelerado dos seus ‘aliados’ europeus, com a ordem, prontamente aceite pela UE, de aumentar as suas despesas militares para 5% do PIB. Daí que a NSS queira ver os ‘aliados’ asiáticos (como o Japão) «incrementar e investir e – o que é mais importante, fazer – muito mais em prol da defesa coletiva». Tudo, naturalmente, sob as ordens de Washington.

 A NSS explicita que os EUA têm de reforçar a sua base industrial militar, que já mostrou as suas lacunas: «Uma força militar forte e capaz não pode existir sem uma base industrial forte e capaz. A enorme clivagem revelada em conflitos recentes entre, por um lado drones e mísseis de baixo custo, e por outro os dispendiosos sistemas necessários para a defesa contra eles, tornou clara a nossa necessidade de mudar e nos adaptarmos. […] e temos de o fazer urgentemente». Reconhecendo a incapacidade actual de ganhar a guerra da NATO contra a Rússia é adiado o objectivo, expresso na anterior Estratégia de Segurança Nacional de Biden (2022), de transformar a guerra na Ucrânia num «fracasso estratégico para a Rússia». Agora afirma-se que «é interesse central dos Estados Unidos negociar uma rápida cessação de hostilidades na Ucrânia, de forma a estabilizar as economias europeias, impedir uma escalada não intencional ou o alastramento da guerra, e reestabelecer uma estabilidade estratégica com a Rússia». Pode ter mudado a táctica, mas não mudou o objectivo. A NSS também modera o tom da confrontação com a China, mas todo o documento aponta no sentido de preparar um futuro conflito. Significativamente, afirma-se a «prioridade estratégica fundamental [de] reestabelecer a dominação energética americana (em petróleo, gás, carvão e nuclear)». Essa dominação permite ‘fechar a torneira’ aos concorrentes. Também por isso os ataques à Venezuela e ao Irão, e o apoio incondicional a Israel como ponta de lança da dominação do Médio Oriente.

 A NSS enquadra os ataques de Trump aos seus ‘aliados’ europeus. Afirma que «a Europa permanece estratégica e culturalmente vital para os Estados Unidos. […] Não só não nos podemos dar ao luxo de dispensar a Europa [como] fazê-lo seria dar um tiro no pé nos objectivos visados por esta Estratégia». Mas não deixa de expressar a vontade de substituir os actuais dirigentes europeus, tal como o trumpismo faz nas estruturas de poder dos EUA. A NSS declara querer «cultivar a resistência no seio das nações europeias à actual trajectória da Europa» e «permitir que a Europa se erga sobre os seus pés e que aja como um grupo de nações soberanas alinhadas, incluindo através da sua responsabilização pela sua própria defesa». É revelador que os dirigentes europeus, lacaios dos EUA desde há muitos anos, se vejam agora com uma faca às costas, empunhada não pela Rússia que tanto combatem mas pela potência que sempre serviram sem hesitações e que agora exige ainda maior vassalagem, a bem de Tornar de Novo Grande a América (MAGA). Trump quer um ‘cerrar de fileiras’ imperialistas, sob as ordens dos EUA, para escalar o ataque contra os países que resistem e persistem em afirmar a sua soberania (Cuba, Venezuela, Palestina, entre outros) e criar condições para o grande objectivo confessado de conter a China.

Davos e as confissões de Carney

 As contradições foram visíveis em Janeiro de 2026 durante o Fórum Económico Mundial de Davos que tradicionalmente junta a fina flor do grande capital mundial. O verniz estalou, sobretudo em torno da Gronelândia. O Ministro do Comércio dos EUA, Lutnick, afirmou: «estamos em Davos para tornar algo cristalinamente claro: com o Presidente Trump o capitalismo tem um novo xerife da aldeia». Provocou saídas tempestuosas de várias personalidades dum jantar oficial, incluindo a Presidente do BCE Lagarde (7).

 Os dirigentes europeus aceitaram calados a destruição à bomba (no tempo de Biden) do seu gasoduto NordStream2, encomendado pela Alemanha para assegurar energia fiável e barata vinda da Rússia. Foram entusiásticos na sucessão de pacotes de sanções que, como disse de início o Ministro das Finanças francês, Le Maire, representam uma «guerra económica e financeira total» que iria «colapsar a economia» da Rússia (Reuters, 1.3.22), mas que apenas tem ajudado a colapsar as economias europeias. Aceitam a acelerada desindustrialização em curso na Alemanha e o endividamento galopante, resultante da política de forte militarização, que querem ainda incrementar. Desarmaram-se, enviando parte importante do seu arsenal militar para ser destruído na Ucrânia. Tudo isso aumentou a sua dependência face aos EUA. E agora vêem-se rejeitados pelo amo que tão empenhadamente serviram e que ataca a UE e ameaça anexar a Gronelândia (talvez para comemorar os 250 anos da independência dos EUA, em Julho?).

 Falou-se muito do discurso em Davos do Primeiro Ministro do Canadá, Mark Carney, saudado por muitos como um novo guru anti-Trump. Carney não é apenas PM do Canadá. Faz parte da elite da alta finança e, inusitadamente, foi Governador dos Bancos Centrais de dois diferentes países: Canadá (2008-13) e Inglaterra (2013-20). Não fala só por si. Mas vale a pena ler aquilo que Carney realmente afirmou. Trata-se duma confissão notável: «Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras (8). Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. […] Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima. Esta ficção foi útil […]. E foi por isso que colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em boa parte, salientar a clivagem entre retórica e realidade. Este acordo já não funciona.» Tradução: enquanto ganhámos alguns trocos, mentimos (conscientemente) e fomos coniventes. Mas agora querem-nos cortar a mesada e assim já não queremos brincar. Soa bem dizer: «Não se pode viver numa mentira de benefício mútuo pela via da integração, quando a integração se torna a fonte da nossa subordinação. […] E tudo isto traz de volta a soberania». Podia estar a falar da União Europeia, mas não está: não questiona essa mentira. Durante décadas o Canadá – e a UE – participaram nas guerras e agressões conduzidas pelos EUA para impor a mentira e destruir a soberania de terceiros (9). Nem o genocídio em Gaza provocou a ruptura. Carney, enquanto Governador do Banco de Inglaterra, foi pessoalmente responsável pelo congelamento do ouro da Venezuela depositado em Londres (10). A «ficção» estava bem quando o Canadá/UE (ou melhor, o grande capital do Canadá/UE) com ela lucrava. Mas deixou de ser aceitável agora que os EUA querem tudo para si. Bem prega Frei Tomás Carney…

 Com um único discurso, Carney deitou por terra a nova liturgia de que estamos perante um confronto entre ‘democracias’ e ‘autoritarismos’. O autoritarismo era ‘democrático’ e ‘liberal’ quando o capital financeiro euro-canadiano também recebia uma comissão. Passou a não ser «aceitável» quando os EUA querem decidir a partilha do botim. E porque haveria de ser «aceitável» para os povos do mundo que sempre foram vítimas da «ficção»? E a «ficção» voltará a ser «aceitável» se amanhã as comadres fizerem as pazes (com ou sem Trump)? É que ficou escrito que era tudo uma ficção. E quando as máscaras caem, fica a memória da verdadeira cara que elas escondiam.

 As «potências médias» não parecem querer romper com a sua vassalagem, mas gemem. A procissão de seus dirigentes rumo à China nos últimos meses confirma isso. O que é certo é que a UE está a aproveitar a confusão para, violando as suas próprias regras, reforçar o federalismo e esmagar ainda mais a soberania dos seus países, ao mesmo tempo que acelera a militarização (e o endividamento).

 Igualmente certo é que todas as potências imperialistas coincidem no ataque aos povos e na destruição dos seus direitos, bem como na pilhagem dos sistemas públicos de segurança social e nas poupanças dos cidadãos, para financiar os seus planos militaristas e belicistas.

 O futuro dirá se o acirrar das contradições vai prosseguir, ou não. E em que medida vai contribuir para acentuar o declínio conjunto de todas as velhas potências imperialistas (11).

Os povos

 Como é evidente, nada disto é do interesse dos povos. É bom que as comadres se zanguem, para nos irem contando algumas verdades. Mas as contradições que agora se evidenciam entre diferentes grupos do grande capital e diferentes Estados imperialistas não são ‘a nossa guerra’. Nada de bom há a esperar, nem de Trump, nem de Carney, nem de von der Leyen ou Costa.

 Isso não quer dizer que seja indiferente para os povos o rumo que os acontecimentos venham a tomar ou as características específicas (e força relativa) das várias facções em confronto. A História do Século XX ensina que as rivalidades podem rapidamente escalar para confrontações abertas, e também para um salto qualitativo do militarismo e autoritarismo que sempre acompanha a passagem à fase da confrontação. Mas é na força e acção dos povos que reside a saída.

 A deriva fascizante do poder trumpiano mostra, sem máscaras, a verdadeira (mas não nova) natureza do imperialismo norte-americano. Não atinge apenas países terceiros. São todos os povos que estão na mira, incluindo o povo dos EUA, como mostra a ocupação militar de várias cidades pelos capangas do ICE, que em Minneapolis se transformou numa luz verde para fuzilamentos nas ruas (12). O terror sionista contra o povo da Palestina está a fazer escola junto das forças militarizadas ou policiais que patrulham as ruas dos EUA, o que não é uma coincidência pois boa parte delas são treinadas pelas suas congéneres israelitas (13). Mas a deriva autoritária e militarista também é uma realidade aquém-Atlântico, como se vê na inqualificável repressão à solidariedade com a Palestina em países como a Alemanha e Inglaterra; na violência da repressão das lutas de massas em França; na insistência da UE na tresloucada escalada de confrontação com a Rússia; na sua recusa em romper com o desrespeito sistemático do direito internacional; na insistência na ofensiva contra os trabalhadores e os povos. Não deve haver ilusões sobre a natureza da UE. A conivência com a barbárie de Gaza fala por si. Está na continuidade do passado colonialista e fascista dos imperialismos europeus.

 Os tempos actuais são muito perigosos. O ascenso do fascismo, do militarismo, do anti-comunismo e dos ataques à democracia a que assistimos um pouco por toda a parte não é um acaso. É fruto deste aprofundar da crise do imperialismo e da promoção pelo grande capital do ‘partido da guerra’. As rivalidades e clivagens crescentes contribuem para aprofundar ainda mais essa crise. Não se pode excluir, num prazo mais ou menos curto, viragens repentinas, uma escalada descontrolada das agressões e guerras, ou a eclosão de novas e mais violentas crises financeiras, com os já conhecidos custos para os trabalhadores e povos.

 Ainda há poucos anos nos garantiam que, com a vaga contra-revolucionária do final do século, a História tinha chegado ao Fim. Que isso era ficção até já é reconhecida pelos próprios. A História, e a luta, continuam. É importante lembrar as lições do passado e aprender rapidamente as lições do presente. Para que os povos façam ouvir a sua voz. Antes que seja tarde.

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Notas:
(1) A correlação de forças, global e entre potências imperialistas, foi profundamente alterada pelo prestígio e força da vitoriosa União Soviética e por avanços revolucionários no plano mundial; pela derrota da Alemanha, Itália e Japão; pela esmagadora hegemonia económica e financeira com que os EUA emergiram da Guerra; pelo declínio resultante do endividamento do Império Britânico face aos EUA e o colaboracionismo da classe dirigente da França com Hitler; pela luta dos povos colonizados que viria a pôr fim aos impérios coloniais.

(2) Após o triunfo da Revolução de Outubro na Rússia, foram as revoluções na China, Vietname, Coreia, Cuba, entre outros países.

(3) Sem desaparecer totalmente. Vejam-se, por exemplo, a crise do Suez em 1956 ou as clivagens em torno da invasão do Iraque em 2003.

(4) Ver o discurso de Larry Fink, patrão do gigantesco fundo financeiro BlackRock, no Fórum Económico de Davos, em Janeiro de 2026.

(5) Sobre os 200 anos da Doutrina Monroe original, ver artigo in O Militante, N.º 388, Janeiro de 2024.
(6) Apesar das taxas aduaneiras e das sanções de Trump, o excedente comercial da China atingiu $1,2 biliões em 2025, ultrapassando pela primeira vez o bilião de dólares (https://apnews.com/article/china-economy-trade-surplus-record-59f6fcc80ee3afc204a024f57766d319

(7) financialexpress.com, 21.1.2026


(8) Não confundir esta expressão com o direito internacional. A ‘ordem internacional baseada em regras’ é um chavão inventado para encobrir as violações do direito internacional levadas a cabo pelo imperialismo.

(9) A lista de guerras e agressões ilegais é infindável: Palestina, Iraque, Líbia, Síria, Líbano, Afeganistão, Irão, Jugoslávia, Cuba, Venezuela, Vietname, Coreia, etc.

(10) Why is Venezuela’s gold still frozen in the Bank of England?, https://www.declassifieduk.org

(11) O escândalo Epstein confirma, não apenas a podridão que grassa no seio das classes dominantes, mas também que a chantagem é uma arma importante para manter alinhados os executantes das políticas determinadas por quem realmente comanda.

(12) É de registar a notável resposta de massas da população de Minneapolis: https://twitter.com/i/status/2014841137802969216

(13) E já assim era em 2016, antes da primeira eleição de Trump: https://www.amnestyusa.org/blog/with-whom-are-many-u-s-police-departments-training-with-a-chronic-human-rights-violator-israel/

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Fonte: https://www.omilitante.pcp.pt/pt/401/Internacional/2247/Sobre-as-contradi%C3%A7%C3%B5es-inter-imperialistas.htm?tpl=142

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[Artigo tirado do sitio web portugués ODiario.info, do 13 de marzo de 2026]

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