França e Alemanha decidem o futuro da UE
Flávio Aguiar -
Numa constantemente apregoada preparação para uma eventual guerra com a Rússia (que alguns políticos qualificam de “inevitável”), a Alemanha investiu 100 bilhões de euros num fundo de defesa. Tudo isto significa que a indústria alemã, que já vinha sendo acossada pela concorrência chinesa, inclusive no setor automobilístico, soçobrou e foi redirecionada para a produção militar
Faz tempo que os principais institutos de pesquisa na França anunciam: na futura eleição presidencial, prevista para abril de 2027, a direitista Marine Le Pen é a favorita. Ela presidiu seu partido, o Rassemblement National (RN), por dez anos, de 2011 a 2021. Hoje é seu líder no Parlamento. Concorreu às eleições presidenciais em 2012, 2017 e 2022. Em 2012 sequer chegou ao segundo turno. Em 2017 e 2022 chegou lá, perdendo em ambas as ocasiões para Emmanuel Macron. Entretanto, em cada uma destas oportunidades ela obteve mais votos do que na anterior. Em 2012 teve 6,4 milhões de votos no 1º turno, 17,9%. Em 2017, quase 7,7 milhões no primeiro turno, e 10,6 milhões (33,9%) no segundo. Em 2022, 8,1 milhões no primeiro e 13,3 milhões (41,46%) no segundo turno. Ao longo desta trajetória foi abrandando seu discurso extremista, mas manteve um tom constante sobre um item delicado e complexo: a guerra na Ucrânia.
Le Pen condenou a invasão russa. Ao mesmo tempo, defendeu e defende uma negociação abrangente e aberta com Moscou, considerando impossível uma vitória do governo de Kiev. Isto confronta a posição tradicional da OTAN, de apoio total a Zelensky, e da maioria da mídia tradicional europeia, que desde sempre optou não só pela defesa da campanha ucraniana, mas também pela versão de que ela está ganhando a guerra, apesar das evidências em contrário. Le Pen manifestou e continua manifestando ceticismo quanto à capacidade de Kiev enfrentar Moscou com sucesso no campo militar. Defende uma ampla negociação diplomática para pôr fim ao conflito. A proposta ainda tem contornos indefinidos, uma vez que ela defendeu seguidamente a ideia de que esta negociação deve abranger o conjunto dos países da União Europeia que hoje, em graus diferenciados, apoiam militar e financeiramente o governo de Zelensky.
Não faz muito Louis Alliot, vice-presidente do RN, declarou que, no caso de vencerem as eleições, “fechariam a torneira” da ajuda à Ucrânia, porque ela prejudica os sistemas de saúde e educação na França, e que esta “não tem dinheiro para continuar financiando armas”. Fica no ar qual seria a posição de um governo Le Pen quanto ao financiamento da OTAN, que segue comprometida até a raiz dos cabelos com a guerra e o financiamento de Kiev, embora pressionada pela instabilidade do governo Trump quanto ao tema de investimento na defesa da Europa diante da Rússia.
Outro ponto sensível é o do envio de tropas francesas para a Ucrânia, eventualmente para supervisionar um possível cessar-fogo, ou como força para impedir que a Rússia ocupe o país, embora Moscou tenha dado sinais de que isto não está nos seus planos. O atual presidente, Emmanuel Macron, aventou a hipótese, mas num governo Le Pen ela seria impensável. Por isto Le Pen e seu partido vêm sendo acusados por outros políticos de “fazer o jogo de Moscou”.
Apesar das inúmeras promessas em contrário, a OTAN continuou a apertar o cerco à Rússia depois da dissolução da União Soviética e do Pacto de Varsóvia. Atraiu para si vários países do antigo Leste Europeu e ensaiou fazer o mesmo com a Ucrânia, depois do golpe de estado de 2014 que, em Kiev, derrubou o governo simpático a Moscou. Ainda está por saber o que de fato uma vitória de Le Pen em abril de 2027 significaria para a OTAN e para a guerra na Ucrânia.
De momento, sua posição ganhou um excepcional reforço com a recente vitória do partido Alternative für Deutschland (AfD), também de extrema-direita, numa eleição estadual da vizinha Alemanha. O AfD foi de longe o partido mais votado na província da Saxônia-Anhalt, um pequeno estado de cerca de 2 milhões de habitantes que antigamente fazia parte da Alemanha comunista, a RDA. Ele teve 44% dos votos contra 17% do segundo colocado, a conservadora União Democrata Cristã, e ficou a três assentos no parlamento local para obter a maioria absoluta e formar um governo solo. O futuro ainda é incerto, porque existe a prática do chamado “Brandmauer” (“Parede Corta-fogo” ou “Cordão Sanitário”) contra o AfD por parte dos demais partidos, evitando fazer alianças com ele. Mas apesar do pequeno tamanho da província e deste impasse momentâneo, a votação causou um terremoto de grandes proporções na Europa inteira.
Foi a primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra, que um partido de extrema-direita conseguiu uma vitória deste porte na Alemanha. E ao contrário de Le Pen, seu líder local, Ulrich Siegmund, não tem baixado o tom de sua pregação radical, em que se misturam xenofobia, nostalgia de aspectos da RDA, e uma ainda imprecisa ideia de reaproximação com Moscou. Ainda há muito o que desentranhar desta vitória do AfD. Desde 2022, quando a Alemanha rompeu com a importação de gás liquefeito da Rússia (55% do consumo no país), a inflação golpeou profundamente a economia, e a indústria nacional entrou em desaceleração, depois em depressão. Evaporaram-se 100 mil empregos, e há a ameaça, no curto prazo, de perderem-se mais 100 mil. A ajuda militar à Ucrânia custa bilhões de euros anuais ao país, provocando cortes substanciais em investimentos no fundo climático, na saúde e nas pensões de aposentadorias.
Além disto, numa constantemente apregoada preparação para uma eventual guerra com a Rússia (que alguns políticos qualificam de “inevitável”), a Alemanha investiu 100 bilhões de euros num fundo de defesa. Tudo isto significa que a indústria alemã, que já vinha sendo acossada pela concorrência chinesa, inclusive no setor automobilístico, soçobrou e foi redirecionada para a produção militar. Apesar desta nova orientação, o golpe na indústria e na economia como um todo foi muito duro, atingindo também os insumos agrícolas, que vinham da Ucrânia, sendo particularmente pesados na antiga RDA, inclusive na Saxônia-Anhalt. Houve ainda outras ressonâncias.
A votação do AfD entre os jovens vem crescendo significativamente. Pesquisas recentes apontam que até alguns anos atrás, a preocupação predominante neste setor no eleitorado era a crise climática. Hoje é a escolha entre paz e guerra. Claro: no caso da “inevitável” guerra com a Rússia, seria o setor diretamente mais atingido. Não faz muito o Parlamento Alemão aprovou uma lei que obriga todo o cidadão masculino, entre 17 e 45 anos, a obter uma licença do Exército se for se ausentar do país por mais de três meses. Em quase toda a Europa - e a Alemanha e a França não são exceções - os partidos tradicionalmente pacifistas, como os Socialistas, Social-Democratas e Verdes, deixaram de sê-lo, movidos pelo recrudescimento da secular russofobia, desde a invasão da Ucrânia. A exceção, além dos partidos de extrema-direita, está nos partidos de esquerda, como a França Insubmissa, liderada por Jean-Luc Mélenchon, ou a Linke e o Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW) na Alemanha, embora os motivos destes e daqueles sejam diferentes, uma vez que a extrema-direita europeia conta com alguma simpatia da parte de Vladimir Putin e a esquerda não.
Aliás, não está descartada a hipótese de que um segundo turno francês se decida entre Le Pen e Mélenchon. Neste caso, as pesquisas dizem que Le Pen venceria facilmente, porque muitos partidários de Macron e dos Socialistas não apoiariam o líder esquerdista. Ao contrário dos partidários deste, que em 2017 e 2022 garantiram a vitória de Macron contra Le Pen no segundo turno.
[Artigo tirado do número 19 (setembro de 2026) do boletim do Observatório do Século XXI]

